segunda-feira, 6 de maio de 2013

saudades em português



     Hoje falo-vos dos que partem. Dos que, sem querer, são empurrados a fazer uma mala cheia de sonhos. Dos que depois de mil novecentas e treze tentativas são obrigados a fechar a loja e a abrir a mala noutro país ou, até mesmo, noutro continente. Todos os dias, a todos os segundos se perdem mais pessoas, mais talentos, mais sonhos bordados em português. Não falo dos que partem voluntariamente, falo dos que Passos mandou dar passos noutra calçada que não a portuguesa. Falo dos que procuram o que o nosso país não lhes pode dar. Falo dos que daqui a uns anos voltarão, com CV’s dourados e referências estrangeiras, dos que nessa altura terão o reconhecimento que não conseguiram aqui e agora. É triste. É triste precisar de sair, de morrer, de reconhecimento transcontinental para termos quem nos aplauda, quem nos admire e quem faça ruas com o nosso nome.

      Então…é melhor partir.

     Estamos a deixar que partam, estamos a deixar sair o potencial para que outros países tenham a sorte de os ver crescer, de os ajudar a crescer. Na mala levam o galo de Barcelos, as toalhas de mesa minhotas dos namorados, os azulejos, a bandeira. No ouvido o fado, o hino nacional, os poemas de Pessoa e a língua portuguesa, tão bela, tão profunda, tão genuína. Na memória os dias de sol, as praias, a dura pedra dos monumentos que se erguem em cidades cada vez mais vazias de sonhos e esperança. No paladar a feijoada transmontana, as alheiras, as açordas, os bitoques, o vinho e o azeite…as mesas fartas e perfumadas. E no coração a saudade. Essa palavra tão portuguesa, tão profunda, tão dura e difícil de ler e suportar. Ao mesmo tempo, a palavra mais bonita da nossa língua, a única sem tradução e a que levaremos no coração para onde quer que vamos.

      Não é fácil partir, ainda mais quando se leva o coração cheio de família, amigos e momentos felizes neste país que de feliz poucos dias tem tido. Ainda assim, é mais fácil partir a achar que se vai voltar…um dia. Com mais histórias, mais experiências, mais conhecimento e sobretudo a sensação de que as coisas têm ainda mais valor quando se perdem. Ou é aí que lhe damos o devido valor. 
      Mais difícil é ver partir. Quando percebemos que temos um país demasiadamente pequeno para todos. Não devia ser assim, não podia ser assim. Precisamos de um país sem cunhas, sem embaixadores de programas que nunca se percebe muito bem para que servem e que nunca passam de palavras num papel. Precisamos de um país com espaço para o talento, sem burocracias e entraves ao desenvolvimento. Precisamos de um país que nos peça para ficar, que nos erga os braços para um abraço e a esperança que tudo vai, realmente, melhorar. 

     Love
     C.

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