quarta-feira, 2 de outubro de 2013

geração das marmitas.


     Quando era pequena usava uma lancheira cor-de-rosa da Barbie. Era pequena, mas na altura parecia-me enorme. Lá dentro eu podia colocar o meu lanche, dinheiro no porta-moedas em forma de coração que trazia agregado e quem sabem ainda teria espaço para um brinquedo e um batom. Sim, um batom. Levava-a para o ballet, para a escola e para as visitas e passeios de estudo. Quando cresci deixei de achar piada à ideia de usar uma lancheira da Barbie e trazer comida atrás para qualquer lado que fosse. Era foleiro levar lanche, as marmitas de almoço eram completamente out. Cresci mais um bocado e comecei a perceber o valor de andar sempre com comida atrás. A ideia de ir para um sitio qualquer e não ter o que comer assustava-me: e se só tiver cartão multibanco e não aceitarem? e se o meu cartão avariar? e se não houver nada para comer com bom aspecto? Na dúvida comecei a ganhar o vicio de andar sempre com um iogurte de beber, umas bolachas ou barrinhas de cereais não fosse o diabo tecê-las. 
     Hoje as marmitas estão na moda outra vez. Atenção, não fui ao baú buscar a da Barbie (embora ela ainda exista). Não há dinheiro nem saúde que resista a comer todos os dias fora o que alguém cozinhou sem vermos como o fez e o que usou. Ao menos assim sabemos o que comemos, evita-se o desperdício e ainda nos disponibilizam objectos super queridos onde colocar o que sobrou do jantar.
     Pronto...confesso-me fã da marmita e do lanchinho :) 
     
     Love
     C.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

paredes de casa que falam#1


     O Outono traz-me sempre a nostalgia do Verão, mas ao mesmo aquele sentimento de mudança e renovação. Longe vão os tempos do novo material para a escola e o cheiro a livros novos. Agora mudamos os móveis de sitio, compramos capas de edredon novas, molduras e quadros divertidos. Tudo para o Adeus ao Verão não doer tanto.

     Love
     C.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

I hate it


     Não é nenhuma novidade que as novelas criam estereótipos, geralmente fazem-no de propósito e embora não seja uma boa prática acaba por ser desvalorizada se for bem feita. Quando se faz uma novela é preciso que haja estudo, trabalho de campo para perceber como são na realidade as personagens que se idealizaram antes de se colocarem em papel.

     Somos um país pequeno com sítios maravilhosos e devia ser pecado não os conhecermos. Devia ser pecado não termos ouvido com mais atenção as aulas de geografia e trocarmos viagens cá dentro por viagens lá fora sem antes conhecermos o que é nosso. E é por sermos um país pequeno que é triste ver uma novela e perceber quão grande é a ignorância dessas pessoas que a escreveram. Falo do novo lixo de ficção nacional, pois está claro. Chama-se I love it, mas bem podia ser I hate it e hate it com muita força. 

     Eu que até sou uma pessoa que gosta de novelas. Aliás, uma pessoa que não tem vergonha de dizer que gosta de novelas. Sou,também, uma pessoa crítica e verdadeiramente defensora da zona onde nasci e que sempre chamarei de “Casa”, por isso não poderia deixar esta indignação passar em branco. Moro em Lisboa e por isso não vou generalizar e concordar com o que ando a ler nas redes sociais. Não são os lisboetas que pensam que os transmontanos são atrasados, são os ignorantes que já foram a Paris, Polinésia Francesa ou Nova Iorque, mas não sabem o que se passa no país onde nasceram e moram. São as pessoas que acham que o mundo global onde vivemos só chega a Lisboa de avião ou que a Internet só chega ao litoral. 
     

     Desculpem-me, mas escrever uma personagem de 18 anos que chega a Lisboa para estudar farmácia e nunca viu o mar ou sabe o que é um mp3 é o mesmo que ter a certeza que existe vida além da Terra sem nunca a ter visto. Alguém disse a essas criaturas que na escola há aulas de informática? Ou que, por exemplo, para uma pessoa se inscrever na faculdade precisa de acesso à internet e consequentemente precisou de ter conhecimentos para fazer trabalhos num computador para ter notas e poder candidatar-se? Quem mexe num computador não sabe o que é um mp3? As pessoas em Trás-os-Montes vão à missa, é verdade. Fazem o crisma e são educados numa vida cristã, mas também costumam sair à noite. Em Bragança há shots a 1 cêntimo na Happy Hour e as miúdas também sabem o caminho para a Zara ou Bershka

     
     Sobre o mar, agora. A menos que as pessoas sejam muito pobres (porque pessoas pobres há em todo lado) é difícil alguém com 18 anos nunca ter visto o mar. E mesmo que não tivesse visto na companhia dos pais e família podia tê-lo feito numa visita de estudo. Lá em cima também temos autocarros e escolas onde nos estimulam a aprendizagem e curiosidade. Criar um estereótipo destes é o mesmo que dizer que em Lisboa as pessoas não sabem de onde aparecem os ovos ou que o leite sai das vaquinhas. 
     
     Além do amadorismo da produção desta novela a actriz também não fez o trabalho de casa. Pergunto, quando é que se vai saber imitar a pronúncia como deve ser numa novela portuguesa? Uma transmontana não fala com sotaque do Porto e muito menos das Beiras. Nada contra nenhum dos dois, mas se é para fazer coisas más ao menos que se façam de forma profissional. 
     
     De tudo o que vi, a cena que me parece mais fiel é aquela em que os pais enviam comidas transmontanas à jovem estudante em Lisboa e ela recebe a encomenda com extra-felicidade. Não sei é que amigos são os dela que não ficam entusiasmados como os meus ficam, mas isso já é uma questão de saber escolher as companhias.

     Resumindo o restante do enredo: há também um brasileiro, interpretado por um português que também não estudou muito antes de começar a representar, uma angolana, um açoriano cujo sotaque também foi muito mal trabalhado e uma que de tão chata nem reparei com atenção qual a sua importância para a história. Moram todos numa casa muito bem decorada em que a renda deve custar um balúrdio por isso, presumo que os pais se desunhem a trabalhar lá nas terrinhas para poderem sustentar a vida luxuosa dos filhos na capital.

     Ah, já me esquecia, falar incorrectamente também não devia ser uma característica associada à personagem. Uma pessoa que ingressa em Farmácia deve ter uma nota minimamente decente a Português e, por isso, cometer erros de português não faria muito sentido. Eu que também vim para Lisboa com 18 anos estudar Ciências da Comunicação sabia que dizer “Prontos” e “hadem” não era correcto, mas o meu professor catedrático dizia-o.

     Love

     C.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

25 velas para bufar.



     Pois é. Este ano precisei de 3 pacotes de velas. Sobraram 11 é verdade, mas foram 3 pacotes e é muita responsabilidade. Não gosto muito do meu aniversário e nem é pela questão de estar a envelhecer. É mesmo por sentir que nunca me divirto como deve divertir: à grande e como se não houvesse amanhã. Mas a verdade é que há e ainda bem. Assim sendo o melhor dos aniversários continuam a ser as pessoas que estão connosco, que nos ligam, mandam mensagens, fazem vídeos e bolos deliciosos, dão prendas e postais, miminhos e nos fazem sentir parte de alguma coisa especial. 

     Obrigado por isso tudo :)

     Love
     C.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Querida Avó



     Querida Avó,

     Escrevo-te 3 meses e dois dias depois. Escrevo-te, mas se estivesses aqui teria que ler-te esta carta. Como te lia todos os documentos que me pedias. Afinal que significância tem não saber ler quando se traz tanta sabedoria na algibeira? Lembro-me que no auge dos meus 10 anos te quis ensinar a ler e escrever e tu disseste: "- Não sejas "brutinha", burro velho não aprende línguas". Não achei o argumento convincente, mas depois reflecti e cheguei à conclusão: Que iria querer eu ensinar a alguém que já sabia tanto e todos os dias me ensinava mais coisas e coisas realmente espectaculares?
     Não sei porque demorei tanto tempo a escrever-te. Penso todos os dias em ti e de como é estranho não estares lá no sofá à nossa espera, como sempre estiveste. Daqui a 4 dias faço 25 anos e não vou ouvir a tua voz a dar-me os parabéns, nem me vais meter chocolates na mala à socapa para eu trazer para Lisboa. Tens de saber que continuamos a pensar muito em ti. Todos e todos os dias. Temos estado juntos à volta de uma mesa com comida como gostarias que fosse. E sobra sempre, porque como tu dizias "É melhor que sobre que falte". Agora, só faltas tu.
     Faltas tu com as tuas piadas espirituosas e aquelas coisas engraçadas que dizias e que ninguém estava à espera: "- Oh avó, não diga isso" e depois riamos muito. Falta ver-te na ponta da mesa onde te sentavas sempre para tomar o pequeno-almoço e enchias o copo de café com duas colheres de sopa de açúcar. "- Avó isso faz-lhe mal", "Oh..morra gato, morra farto". Faz falta a tua sopa de batatas, legumes, arroz e massa...tudo junto. Fazem falta as tuas batatas com ovo e salsicha que sabiam pela vida. Não cozinhavas para nós muitas vezes e por isso quando o fazias era uma festa. 
     Fecho os olhos e oiço a máquina de costura, o tecido de flanela a deslizar na agulha gasta pelo tempo. Oiço-te a cantar meia dúzia de versos de uma música que não me consigo lembrar. E se passo em certos caminhos vejo-te a caminhar devagar e de mãos atrás das costas como fazias sempre. E se fosse domingo ao final da tarde só nos conseguia ver a implorar "Avó, venha dormir a nossa casa!", "Só um dia", "Oh, oh..não vou nada, eu estou bem é na minha casa". Se fosse preciso chorávamos e isso era suficiente para te comover e fazer pegar nas trouxas para ires um dia que fosse. O mesmo para quando te pisávamos nas plantações da horta e tu dizias "Carai na canalha que estraga tudo com o pés" e 5 minutos depois estavas a dar-nos morangos bebés que nasciam das tuas morangueiras de estimação. 
     Não há tempo que consiga apagar tudo isto, todas a festas de aniversário, todos os jantares de Natal, todos os domingos de Verão na rua ou Inverno à beira da lareira. Não há tempo que nos faça deixar de querer ser a tua preferida e sobretudo fazer tudo para que te sintas orgulhosa. 

     Love
     C.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

quando passamos as pontes.


     É difícil passar as pontes. É demorado e cauteloso. É, na verdade, uma tarefa que exige tacto e calma. Exige sabedoria e certezas. Passar uma ponte requer a consciência que quando estivermos lá no meio não dá para voltar atrás, deve por-nos a pensar: E se eu quiser voltar? Assumo esse risco? A certeza da passagem não deve estar com quem nos espera do outro lado, a certeza tem de estar connosco. Se não a tivermos não temos nada e mais vale dar meia volta e ficar onde estivemos desde sempre. 
     E depois de passá-la? O que acontece? 

     Love
     C. 

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Uma Gaiola muito portuguesa, com certeza!



     Há filmes que marcam gerações, outros que marcam épocas, outros ainda que marcam um ano em específico. Depois existem os que marcam as pessoas porque contam histórias de pessoas, tal como elas são.

     Entrei no cinema com grandes expectativas e 14 dias depois da estreia. Já tinha lido tudo o que havia para ler sobre o filme: actores, realizador, banda sonora e afins. Já tinha ouvido opiniões de amigos e conhecidos. Só não li as críticas escritas pelos ditos especialistas na matéria, raramente leio e neste caso não seria diferente. 

     A sala estava cheia como há muito tempo não a via, talvez porque vá poucas vezes ao cinema ou simplesmente por ser verdade que a Gaiola Dourada é realmente um sucesso de bilheteira. Sentei-me nos lugares que restavam que por sinal eram os piores. Esperava encontrar tudo aquilo que li e ouvir dizer, esperava chorar e rir, esperava ter todas as experiências que estamos longe de ter num filme banal de domingo à tarde.
     Encontrei mais do que esperava. Ri como há muito não ria numa sala de cinema e tive déjà-vus em muitas cenas do filme. Finalmente um filme onde se pode gostar de clichés, finalmente um filme onde clichés que podiam ser pejorativos se tornaram ternos e dignos de admiração. É difícil, mas conseguiram-no de forma brilhante.

     Adorei a banda sonora, acho que é uma das partes mais importantes de qualquer história. Acompanha-a, realça-a e enaltece-a. Fantástico terem escolhido Rodrigo Leão, fantástico o filme respirar lusitanidade em todos os poros mesmo quando foi produzido em França e se intitula de filme francês. 
     Emocionei na parte do fado. Não foi pela música, não foi pela actriz escolhida. Nesse momento senti-me uma estrangeira que mesmo sem entender nada e de olhos fechados podia sentir o poder do fado e das guitarras portuguesas. Arrepiaram-se-me os pêlos dos braços, arrepiou-se-me a alma. Sensação difícil de transpor para palavras.

     Tenho de confessar a minha admiração pela Rita Blanco, uma admiração que foi gradual e que culminou com este filme. Acho-a talentosa e encontro nela algo que não consigo encontrar em mais nenhuma actriz portuguesa. Tal como o fado, não consigo explica-lo. Não conseguiria imaginar outros actores neste filme, o casting foi perfeito e sinto que cada personagem foi pensada com muito carinho. Foram construções pormenorizadas e que não podiam ter sido feitas de outra forma. 
     Conseguimos ver que realmente o coração de Rúben Alves é português. E mesmo sem saber a nacionalidade, saberíamos que mais nenhum seria capaz de fazê-lo assim, tão genuíno, tão verdadeiro e simples. O facto de, em parte, ser uma homenagem torna-o ainda mais especial. Ele conseguiu numa história tão simples colocar tudo, tudo o que só nos faz orgulhar de sermos quem somos e de podermos sê-lo em qualquer país que escolhamos para ser a nossa nova casa. 
     Na verdade a magia dos filmes está nisso mesmo, tocar o coração das pessoas. A Gaiola Dourada tocou, mostrou à França e lembrou-nos a nós do que somos feitos. 


     Love
     C.